“É preciso não ter medo de criar.”
Clarice Lispector, Perto do coração selvagem
Às
vezes é difícil começar. Ou retomar. Ou dar título. Hoje eu ganhei um título
quando vi duas corujas enquanto voltava para casa. Nada de Edwiges: eram duas
corujinhas brasileiríssimas, castanhas, morenas. Fossem morcegos e eu teria fugido
– sem chances de virar Batman. Corujas, no entanto, têm tudo a ver comigo, com
letras, palavras. Com o tal do apelido Plumalume que me dei um dia. Tudo a ver
com volta.
Ainda
sobre (re)começar, retomar, voltar, isso aqui sendo criado é uma volta ao
presente que me dei no último natal: um livrinho rosa com uma colagem moderna
na capa chamado Sentir um pensamento – frases e reflexões para as 52 semanas
do ano. Nada de frases aleatórias, mas citações – verificadas, vamos deixar claro – de Clarice Lispector. Minha querida e linda Clarice Lispector, que
muitas vezes sumiu com a barreira entre o sentir e o pensar enquanto escrevia.
Sou atrevido a ponto de chamar de “minha”, sim.
A
citação ali do início é da primeira das cinquenta e duas semanas do livro. Não
ter medo é o mesmo que ter coragem. Só agora, na trigésima terceira semana
do ano, tive essa coragem de começar. Já sou uma pessoa bastante diferente
daquela que se deu o livro de presente de natal, tão certa que retomaria o
exercício delicioso de escrever periodicamente ali na primeira semana do ano,
do livro. O tempo precisava ser agora. Não sei o motivo, mas tenho certeza.
Escrevo
com música nos dedos. Grávida, de Marina Lima. Ainda não sei ao que vou dar à
luz: avião, chão, nota musical, montanha. Pegando carona, faço uma pergunta: onde
é que eu vou parar? “Aonde é esse aqui?”, Arnaldo Antunes. Letra e música
sempre. Um dia já fui mais Carrie Bradshaw e escrever no notebook, num inverno
atípico, até poderia fazer de Piracicaba algo assim como Nova Iorque – música de
novo –, mas nunca fui tão brasileiro quanto aqui, agora, hoje.
Já
que o Caetano Veloso apareceu por aqui, parte do não ter medo chamado coragem
que me colocou aqui é mérito do aniversário de 82 anos dele, celebrado há uma
semana. Eu ouvi Língua, pensei em usar como trilha sonora para uma selfie
comemorativa. Pensei na voz maravilhosa de Elza Soares – que tive a sorte de ter
assistido ao vivo na minha Piracicaba –, na alegria de ter escolhido Língua como trilha sonora da formatura em Letras. Letras Português, não qualquer uma!
Caetano leonino, nos vemos em breve em Belo Horizonte. Curiosamente no estado da minha família materna. Minha mãe e eu assistimos Caetano pela última vez um mês antes de ele virar um octogenário. Veremos também a mana Bethânia logo, logo. A última vez foi há quase exatamente dois anos, pouco tempo depois de ver o mano. Ela uma entidade, divina, uma bruxa, ele tão elegante, frágil e forte. Um cidadão do mundo, a outra santoamarense, brasileiros. Que delícia, que orgulho!
Por ora, vou terminando. Deixo mais para a próxima semana. Desejando coragem – como brinquei traduzindo o “(Write it!)” de One Art da Elizabeth Bishop uma vez –, músicas e bons títulos. “Eu estou só começando...”
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